Crônica e Seresta, por Paulo Rolim

Crônicas que retratam o dia-a-dia da cidade, das pessoas, de situações e circunstâncias. Informações de cultura, boemia e sobre o mundo da Seresta em todas as épocas.

7.10.11

UMA ELETRÔNICA… DA JANELA DA VIDA

Há anos que passo pelas ruas e avenidas do Setor Vila Nova, em Goiânia. Próximo à Praça Vereador Boaventura, a principal do bairro, tem algumas salas comerciais, talvez as primeiras construídas naquele local. Da janela do carro observava sempre uma pequena porta, e dentro da sala um balcão humilde, normalmente ocupado com inúmeras carcaças de aparelhos de TV, rádios, vitrolas, aparelhos eletrônicos diversos, em organizada bagunça. Parece que nunca mudavam de lugar aqueles velhos televisores. Permaneciam sempre ali.
Na humilde fachada, uma pequena placa com os dizeres “Eletrônica – conserta-se rádio e TV – Preto e branco e a cores”. Atrás do abarrotado balcão, podia-se notar a figura de um senhor, sempre com a vista voltada para seus transistores, soldas, válvulas e outras peças daquele mundo que eficientemente ele dominava.
Ao fundo, uma prateleira – também abarrotada – de rádios de mesa. À distância, pela janela do carro eu podia eu notar ali rádios novos e antigos. Via alguns Semp 700, ABC a Voz de Ouro, e outros sem marca. Sabidamente, aqueles rádios deveriam ter donos, mas que nunca voltavam pra buscá-los. Nem assim o dono daquela eletrônica se desfazia deles, parecendo esperar calma e pacientemente que um dia o proprietário viesse retirá-lo.
Quando comecei a passar ali, aquele senhor tinha cabelos pretos ainda. Como o tempo é implacável, percebi seus cabelos aos poucos ganhando tons cinza e finalmente, brancos. Mas o seu jeito, não obstante o tempo que passava, era sempre o mesmo. Jeito de uma pessoa prestativa, sempre alegre e de uma honradez a toda prova.
Ultimamente, com o trânsito mais complicado, engarrafado e lento, me fez olhar mais detidamente para aquela pequena eletrônica. Pouco, ou quase nada mudou desde que comecei a observá-la.
Ao ver aqueles aparelhos, viajava no tempo. Fizeram Lembrar-me da minha primeira TV, ganhada de presente depois que casei - uma velha e usada Philips, que conforme estivesse o clima, demorava um pouco mais a funcionar. Sem contar as inúmeras vezes que visitava uma eletrônica parecida com aquela da Vila Nova, sempre para trocar uma peça chamada flyback. Assim ela voltava a funcionar por mais algum tempo.
Lembrava ainda a vitrola sonata – ou radiola, que minha mãe gostava de rodar seus discos, LP’s de Sergio Reis, Orquestra Tabajara, passando inevitavelmente por Roberto Carlos. Além dos LP’s, havia uma coleção de Compactos, pequenos discos de vinil, com duas musicas, - os simples, ou com quatro musicas - os duplos.
A vida, como as águas de um rio, foi seguindo em frente. Meses, anos se passaram. Ficaram cada vez mais raras as minhas idas cada por aquele lugar.
Semana passada eu precisei passar novamente pelo local. Ao chegar à pequena rua fiquei surpreso ao ver a eletrônica fechada. Aproximando-me mais, vi colado à porta um cartaz escrito à mão, com uma simples e única palavra: Luto.
Senti um aperto no coração. E certo sentimento de culpa, por não ter conhecido melhor aquele senhor, que tinha semblante alegre e de paz. Pensei comigo: quantas vezes ele trouxe alegria e felicidade às pessoas, ao deixar novinhos e funcionando, rádios, televisores, aparelhos de som, radiolas, sem contar seu jeito altivo e generoso com os que o cercavam.
As hoje movimentadas ruas e avenidas da Vila Nova não serão mais iguais. A eletrônica agora está fechada. Fica o exemplo bom e a lembrança de um cidadão que, durante tantos anos, ali se estabeleceu, trabalhou e manteve sua família, com muita dignidade e honradez.

Goiânia, 7 de outubro de 2011

Paulo Jose Américo Rolim

criado por americorolim    19:51 — Arquivado em: Sem categoria

30.9.11

PRIMAVERA, CIGARRAS, REENCONTRO

Eu bem que quis escrever sobre outro assunto. Quis variar um pouco, afinal, como hoje é um retorno, um recomeço do contato com os tão caros amigos ouvintes do Seresta, seria bom vir com algo inédito, algo que, como de tantas vezes, pudesse atender a pretensão de tocar o coração dos que nos ouvem.
Confesso que não consegui. Não consegui, pois desde as primeiras horas da manhã um sabiá laranjeira, com seu canto dolente, insiste em me encantar, com sua sinfonia bela e melancólica.
A primavera chegou na madrugada do ultimo dia 23. Chegou, é verdade, mas continuamos tendo dias e noites de muito calor, muita sequidão e umidade com níveis de deserto do Atacama.
Fim de tarde de uma sexta-feira quente e abafada. Além do canto do sabiá, percebo que as cigarras estão começam a entoar insistente e harmônica sinfonia. Antes do canto das cigarras, embalado pela alegria do sabiá laranjeira, pude observar nas flores da goiabeira e dos cajueiros um sem numero de insetos, abelhas, pequenos besouros, todos em seu natural trabalho de polinizar e dar a seqüência à vida, para que logo venham frutos.
O canto das cigarras e o mormaço trazem uma certeza: a primavera trará em breve a irmã chuva. Chuva! Que saudades, irmã chuva.
Hora de saber se aquelas pequenas goteiras da casa que haviam sido consertadas voltaram, e matar a saudade da água escorrendo no terreiro, contrastando com a luz dos postes, de sentir na face o leve e carinhoso respingo da chuva, nos beirais da varanda.
A primeira chuva lava e limpa telhados, retira a fuligem e poeira das folhas das árvores, traz o cheiro característico de terra molhada que, segundo os antigos, se ficar muito próximo, acaba contraindo gripe. Não desfaço da sabedoria dos antigos, mas gosto de sentir o cheiro de terra se molhando, logo nos primeiros pingos.
Depois, já no outro dia, vem a alegria de andar e sentir ao pisar na terra molhada. Parece que o ir e vir dos pássaros se acentua. Harmonia da natureza. O orvalho da manhã indica que logo a vida voltará onde apenas existe terra seca. Fertilidade.
O canto das cigarras traz o encanto da volta das chuvas, da expectativa de fartura, da renovação da vida.
Ousaria comparar a volta das chuvas, o canto do sabiá e das cigarras com a volta desse programa ao vivo das sextas-feiras. Assim com faz falta a chuva, como faz falta a alegria da natureza se renovando com o verde dos campos e da arvores, também fez muita falta esse nosso encontro semanal.
Bom ouvir o sabiá saudando a primavera, bom rever o canto alegre das cigarras, assim como é muito bom reencontrar os amigos que sempre estiveram e sempre estarão em nossos corações. A primavera, com o canto das cigarras e dos sabiás, com as flores que em breve serão frutos, fez com que esse reencontro se tornasse melhor ainda. Bem vinda, primavera.

Goiânia, 30 de setembro de 2011
Paulo Jose Américo Rolim

criado por americorolim    20:09 — Arquivado em: Sem categoria

17.9.11

ESTAMOS TAMBÉM NO BLOGSPOT

Prezados amigos leitores:

Não obstante as tentativas frustradas de importar o conteúdo do blog que mantenho aqui no Terra,  a partir de hoje iniciarei a publicação nos blogspot.

É sabido que o Blogspot oferece melhor plataforma tecnológica, maior facilidade e diversidade de recursos para que se possa fazer um blog visualmente à altura dos amigos leitores.

Continuarei publicando aqui no endereço do Terra, em respeito aos amigos que acessam por aqui!

Um abraço fraterno a todos.


Ótimo sábado


Paulo Rolim

Editor do “Crônica e Seresta”

criado por americorolim    8:00 — Arquivado em: Sem categoria

AINDA SOBRE SABIÁS… E CANÇÕES

Os primeiros raios de luz da manhã chegam e trazem consigo com o canto maravilhoso e plangente do Sabiá laranjeira que, nos últimos dias tem me brindado com sua presença, no alto da goiabeira, da mexerica-fuxiqueira, do pé-de-manga, por sinal carregado e com galhos vergados sob o peso dos frutos, ou simplesmente sobre a cerca da pequena horta, em meu quintal.

Pouco depois, chegam as Rolinhas da terra e Fogo-apagou, os barulhentos e alegres Pardais que, acompanhados de Bem-te-vis e Joões-de-barro dão inicio a magnífico concerto matinal. Por algumas horas reinam absolutos no alto das árvores, não obstante o barulho dos veículos que trafegam na movimentada avenida que passa pertinho de minha casa, que insistem em vão em sobrepor à movimentada e animada orquestra de pássaros.

Hoje notei algo diferente. Os passarinhos estavam bem mais irrequietos, voando de um galho para outro, num frenesi sem precedentes. Olhando fixamente no horizonte, na barra do nascente, percebi que apesar da claridade do dia, o sol demoraria um pouco mais a chegar. Ou talvez nem viesse.

Uma leve brisa acariciou meu rosto trazendo a sensação de bem estar e até de felicidade. Olhando para o céu, percebi um mormaço e sinais que poderiam cair algumas gotas de chuva.

Observei na goiabeira que os frutos temporões praticamente acabaram. Poucos se podiam ainda ver no lugar mais alto, já com parte comida pelos pássaros que sempre estão ali. Mas o que me chamou a atenção foi o grande numero de folhas novas e de flores, que em breve se tornarão fruto. Prenúncio de farta e generosa safra de goiabas, das vermelhas, doces e deliciosas, que está por vir.

A alegria dos pássaros e as folhas novas e flores da goiabeira me trazem uma certeza: a primavera está por chegar. E primavera na minha Goiânia querida é sinal de beleza, de colorido, de muitas flores, canto de pássaros e muitos frutos.

A chuva ensaia seus primeiros momentos. Apesar da informação da meteorologia de que ainda pode demorar, a mãe natureza sábia que é, percebendo a sequidão de Goiânia e a necessidade urgente de mais umidade, mandou esses pingos d’água pequeninos qual orvalho da manhã, mas de grande importância. Que venha aos poucos, mas venha logo, irmã chuva.

Do meu quintal, avisto a grande mata do Faiçalville, com seus jatobás imponentes, majestosos, exercendo sobre as outras arvores da reserva seu reinado.

Acalento um sonho. Sonho de um dia poder reunir amigos, crianças, vizinhos e gente da minha cidade em torno de um concerto. Concerto de Primavera ou talvez, Canto da Primavera, como já existe em outro lugar. Imagino em meu sonho uma tarde, quase noite, a presença de artistas da minha região, cantores mirins e quem sabe, também a Orquestra Sinfônica de Goiânia, oferecendo um belo espetáculo em saudação à beleza do lugar e à dádiva da renovação da vida e da natureza, que todo ano começa com a chegada da primavera.

Por enquanto apenas sonho. Mas que pode se tornar realidade um dia. Depende da luta de minha gente, depende somente de nós!

Enquanto meu sonho não se torna realidade, vou me deliciando com o particular concerto matinal dos pássaros do meu quintal. Privilégio que tenho todos os dias, nesse quase início de primavera.

Goiânia, 14 de setembro de 2011.

Paulo Jose Américo Rolim

criado por americorolim    7:40 — Arquivado em: Sem categoria

10.9.11

ISAIAS CALDEIRA DOS SANTOS: MANTENHA CONTATO!

Prezado amigo leitor Isaias Caldeira:

Tenho muitos amigos na Campininha querida, inclusive pessoas que são descendentes dos fundadores do “Arraiá da Campininha”. Acredito que posso ajudá-lo a encontrar seus antepassados, ou ter noticias deles. Mande seu contato pelo e-mail: cronistapaulorolim@gmail.com  Será uma grande satisfação para mim. Me interessa muito esse assunto também. Se seus antepassados foram donos do Cartório de Registro de Imóveis da Campinha, certamente foram testeminhas oculares e protagonistas da história daquele lugar.

A Campininha querida é um lugar único, de muita história e tradição.

Estou no aguardo.

Um abraço fraterno


Paulo Rolim

criado por americorolim    13:49 — Arquivado em: Sem categoria

31.8.11

PRIMEIRO BOLÃO DA MEGA-SENA VIA TWITTER ACONTECE EM GOIÂNIA!

TWITTER: PRIMEIRO BOLÃO DA MEGA-SENA FEITO NO TWITTER ACONTECE EM GOIANIA!!

Em conversa no Twitter sobre o que fazer com o premio acumulado da Mega Sena concurso nº 1315, que será sorteado hoje, alguns tuiteiros começam a imaginar o que seria a vida com um prêmio desses. Uns vão pescar, outros alavancar candidaturas políticas, e assim, nessa gostosa viagem de sonhos, cada um coloca ali, em apenas 140 caracteres aquilo que tenciona fazer, seus desejos e aspirações.

O prêmio é tentador. Aproximadamente 63 milhões segundo informa a Caixa Econômica Federal, promotora dos sorteios da Mega-Sena.

Então, um dos tuiteiros, o Representante comercial Sandro Ragonezi tem a ideia de um bolão, com todos jogando duas cartelas e se solidarizando. Definidas as regras, os perfis @sandroragonezi e @americorolim de Goiânia- GO, @Djalmarib de Cristianópólis – interior de Goiás, @CeliaPessoa de Jaraguá, também interior de Goiás , @nasiazakhia de local não identificado agora são passageiros na espaçonave do sonho do prêmio milionário da Mega-Sena.

Isso vem mostrar o que é o twitter, rede social e ferramenta de comunicação cada dia mais presente na vida dos brasileiros, mostrando que pessoas de diferentes cantos e atividades podem se unir e até fazer um bolão da Mega-Sena.

Boa sorte então aos tuiteiros apostadores!!!!

Goiânia, 31 de agosto de 2011

Paulo Rolim

criado por americorolim    14:18 — Arquivado em: Sem categoria

25.8.11

SABIÁS, QUINTAIS… E SAUDADE!

O quintal de casa sempre foi um lugar mágico e encantador para mim. Muito criança - ainda na Fazenda Nova América - freqüentava o amplo quintal, cheio de árvores frutíferas, goiabeiras, e mangueiras, com lugar para pés de limão, laranja, mexerica, amora, dentre outros. Ali era onde eu tirava pequenos frutos do chuchuzeiro e fixava gravetos, imitando patas e formava minha boiada. Um pedaço maior de osso velho, jogado por ali era o touro marruá, que no meu imaginário era o pai da boiada.

Depois já morando em São Miguel do Araguaia após a escola, encontrava-me com os colegas vizinhos e com freqüência quase diária, brincávamos de cowboy, imitando os filmes de faroeste tão em moda naqueles tempos. O cenário ideal eram os quintais das casas, tendo em vista que em poucas casas havia muros, os lotes eram separados apenas por cercas de arame, ou tela, o que facilitava o deslocamento da molecada.

Nenhum vizinho se importava com nossas brincadeiras, todos eram conhecidos e não havia o temor de hoje, todos eram crianças de boa índole, ninguém pensava ou temia maldades naquele tempo.

Além das brincadeiras, tínhamos ali com fartura e generosidade o lanche da tarde. Conforme a época colhíamos mangas, pinhas, goiabas, abacates, mexericas, cajus, tudo isso fazia parte de nosso cardápio. Às vezes o que faltava em um quintal, a gente completava com o que havia em outro. Assim levávamos a vida.

Hoje, depois de tanto tempo, morando em Goiânia, cultivo e preservo um amplo quintal em minha casa. Não tão amplo quanto o da minha infância, mas de bom porte.

Em meu quintal da cidade grande tenho pés de manga, goiaba, mexerica, laranja e limão. E ainda sobra espaço para cultivar uma pequena horta, onde aproveito o espaço e tenho canteiros de alface, coentro, couve, salsa, pimentão, pimenta malagueta e de cheiro, rúcula, rabanete, tomate e um teimoso e esperto pé de abóbora que transpõe o limite da horta e invade o restante do terreno.

É sempre uma alegria levantar bem cedo e antes de ir para o trabalho, cuidar por algum tempo da pequena lavoura. Dia a dia acompanho a evolução das hortaliças, enquanto começam a chegar por ali as avezinhas que habitam nas proximidades.

Um sem número de rolinhas da terra e fogo-apagou, corruíras, bem-te-vis, joões-de-barro e pardais freqüentam o lugar diariamente, usufruindo do lugar fresco, da terra macia e molhada, em busca do alimento farto, os pequenos insetos da horta.

Ultimamente recebo diariamente a visita de um casal de sabiás que chegam bem cedo, com os primeiros raios do sol e soltam seu belo e lamurioso canto. Impossível não se emocionar.

Uma manhã, quando regava os canteiros um desses sabiás chegou bem perto de mim, me olhando fixamente, como a dizer: confio em você, você nunca vai me ferir ou machucar.

A lembrança do canto daquele sabiá, sua imagem e confiança durante todo o dia ficou em meu pensamento. Vivo em uma metrópole agitada, às vezes violenta e de estilo de vida muito rápido e intenso.

Agradeço ao Criador. Posso sem sombra de dúvida afirmar que sou privilegiado. Tenho um cantinho onde ensimesmado, vivo meus momentos de reflexão e saudade, ao som do canto maravilhoso de um sabiá!

criado por americorolim    18:02 — Arquivado em: Sem categoria

12.8.11

CELEBRANDO O DIA DOS PAIS!!

A mídia do rádio, da TV e dos jornais começa bem antes da data a nos lembrar do dia dos pais. Não permite que em momento nenhum esqueçamos a data, tal a massificação. Chegou o dia dos pais. Dia de recordação de bons momentos, de alegria, confraternização, dia de abraçar o papai.

Para mim o dia dos pais se resume em recordações e saudade. Logo quando acordo, me vem à lembrança aquela figura simples, humilde, amiga e acima de tudo, exemplar que foi meu pai.

Guardo lembranças de meu pai desde a mais tenra infância. Recordo quando de tarde ele chegava do árduo trabalho na roça, quando descansava a enxada no oitão da casa, tirava o chapéu e sentava no pequeno banco em frente à casa, resumindo naquele gesto a fadiga de um dia de trabalho duro na roça, sob sol escaldante, ou muitas vezes, sob torrencial chuva.

Depois de conversar com minha mãe e saber como andavam as coisas em casa, o momento mais esperado: chamava-me para acompanhá-lo até o pequeno riacho que corria ali próximo, onde deixava boa parte de seu cansaço naquelas águas cristalinas. Eu orgulhosamente o acompanhava, onde brincávamos, subia em seu ombro, pulava, mergulhava com segurança total – apesar da minha pouca idade – e saíamos dali alegres, felizes. A vida até que poderia se resumir naqueles momentos.

Depois, deixamos a Fazenda Nova America e mudamos pra cidade. Mudamos pra pequena São Miguel do Araguaia, onde a labuta diária era talvez um pouco mais difícil, começava às seis da manhã, quando abria o pequeno comercio, naquele tempo conhecido como venda e só terminava às oito e meia da noite. Todos os dias, exceção do domingo, quando começava mais cedo ainda – às cinco e meia da manhã e ia trabalhar na feira, ou como diziam àquela época, fazer a feira. Naquele tempo aos domingos todo o comércio da cidade era direcionado para a feira. Assim, a labuta ia de segunda a segunda, sem intervalos. Ainda assim, nunca ouvi meu reclamar do fardo ou das obrigações que assumia diariamente.

Hoje não tenho mais meu pai. Depois de cumprir sua obrigação por aqui, um dia Deus o chamou. Por outro lado, hoje sou pai. Não quero nem espero homenagens, felicitações ou um simples parabéns, afinal, a gente é pai todos os dias do ano.

O dia dos pais para mim será um dia de recordações, onde intimamente viverei minha saudade, de forma serena, tranqüila e até certo ponto, introspectiva.

Ao acordar, como já fiz em tantos domingos não me apressarei em aprontar-me logo para, juntamente com minha família, dirigir-me à casa paterna tantas vezes visitada. Intimamente, buscarei nos recônditos do coração os momentos bons vividos ao seu lado, o seu bom exemplo de cidadão e pai de família e talvez ate derrame uma solitária lágrima de saudade. Mas que poderá também ser de alegria, afinal, também sou pai.

Goiânia, 12 de agosto de 2011

Paulo José Américo Rolim

criado por americorolim    19:54 — Arquivado em: Sem categoria

29.7.11

DAQUELAS TARDES FAGUEIRAS…

Em uma tarde desta semana parei meu carro em frente a um posto de saúde, um CAIS como é chamado em Goiânia, antigo e tradicional local de pronto atendimento, construído há muito tempo, para onde acorre grande numero de pessoas em busca de solução para seus problemas de saúde.

Enquanto aguardava a chegada da pessoa que fora buscar fiquei ali, dentro do carro, absorto em meus pensamentos, a observar a vida e as pessoas que ali passavam. Notei que do outro lado da rua, sob a sombra de frondosa árvore – que ainda não sucumbiu à motosserra – um bando de crianças, imagino que de entre cinco e sete anos de idade, todas meninas – em animada conversa que evoluía sempre pra uma alegre cantiga de roda.

Passei a prestar atenção na letra daquelas cantigas. Letras que falavam de alegria, de coisa muito particular de criança, de um mundo puro e ingênuo. Coisa mesmo de contos de fadas, de brincadeiras e de singela inocência.

Não obstante estarem em frente a um posto de saúde, onde pessoas que estavam ali de fora certamente aguardando seus parentes, cujo semblante mostrava preocupação, aquelas meninas alegres mudavam o tom sombrio e triste daquele lugar.

E aquelas meninas, a maioria vestida com roupas de tom cor-de-rosa não estavam nem aí para o mundo que corria e passava além daquela calçada, debaixo daquela árvore. Continuavam sua alegre e embalada brincadeira.

Logo, apareceram alguns adultos, certamente pais das meninas e com certa tristeza, vi elas timidamente se despedirem. Não se conheciam antes de chegar ali, e provavelmente, nunca mais se encontrarão nessa vida. Mas exerceram a afabilidade e costumeira alegria de criança, não ligando para a importância ou classe social de que estava ao seu lado, queriam apenas brincar e ser criança.

Viajei também aos momentos de minha infância. Vi bem na minha frente o carrinho de lata colorido, de rodeiras de restos de chinelas de borracha, que eu puxava por um cordãozinho amarrado na frente, da boiada de que eu fazia, fincando gravetos como se fossem membros nos chuchus abundantes da fazenda, da felicidade de observar as lépidas e belas borboletas azuis que chegavam bem perto de mim.

Revi meus amiguinhos de infância. Vivi a alegria de receber doces de minha avó - tinha que ser escondido, pois meu avô não gostava de doces fora de hora, ou de manhã. Coisas de carinho que só quem tem ou teve uma avó sabe o que é.

Fui até a infância de minhas filhas, de quem tanto cuidei. Os desenhos animados, os seriados da Panky na TV, a caixa cheia de bugigangas que serviam de brinquedos e era companhia de horas e horas no quarto. Saudade!

Hoje quando ligo a TV e vejo os telejornais, fica difícil não sentir aquele nó na garganta tal é a freqüência com que se cometem crimes violentos contra nossas crianças. Crimes que ferem a alma de inocentes e frágeis criaturas.

Crianças são como anjos. Representam o bem e só querem viver sua infância sem maldade, sem medo e podendo sempre chegar onde quer que seja, mesmo que de frente a um posto de saúde, juntar-se a outras e numa tarde fagueira qualquer brincar e se divertir em alegres cantigas de roda.

Sai dali de coração leve, por perceber que a felicidade durante alguns momentos esteve presente, muito naturalmente estampada no semblante daquelas crianças. Que a vida permita sempre a elas viver a alegria e a harmonia de momentos como esse.

Goiânia, 29 de julho de 2011.

Paulo Jose Américo Rolim

criado por americorolim    12:31 — Arquivado em: Sem categoria

22.7.11

MEU ARAGUAIA DE TANTA SAUDADE

(Um amanhecer no Rio Araguaia da década de 1980)

O barulho do motor da balsa que fazia a travessia entre o povoado de Luiz Alves e o lado do Mato grosso me despertou muito cedo naquela manhã. Ainda restavam os últimos momentos da madrugada e ainda havia estrelas tardias no céu. A manhã majestosa breve chegaria e emitia sinais de um belo esplendoroso dia.

Preguiçosamente me sentei no colchonete da pequena barraca que dormira e resolvi levantar. Nada de aguardar mais tempo na cama, afinal, jurara pra mim mesmo que aproveitaria para contemplar a chegada do dia.

Ao sair da barraca recebi no rosto a leve carícia do vento que trazia consigo a famosa “friagem” das manhãs do Araguaia. Fui acompanhando com o olhar o lento e constante deslizar sobre as águas do rio da balsa azul, que parecia navegar na mesma velocidade em que o dia começava a chegar.

Andei em direção ao Rio, sentindo a suave cantiga do atrito de meus pés com a areia que, nivelada pelo vento da noite, parecia resistir aos avanços da minha caminhada. Ao longe notei que saía do porto da pequena Luiz Alves um grupo de pescadores embarcados em velozes voadeiras, canoas a motor de deslocamento rápido. Iam em busca do grande peixe, logo nas primeiras horas da manhã, momento bem propício à boa pescaria.

Bandos de barulhentas e animadas gaivotas e os grandes e elegantes Tuiuiús começavam a dar o ar da graça. Na mata ao longe, do lado do Mato grosso, a orquestra de inúmeros pássaros executava seu concerto matinal. Momento mágico de todas as manhãs, quando saudavam a mãe-natureza, pródiga e generosa.

Inúmeros casais de araras azuis e vermelhas cruzavam a extensão do rio. Iam em busca de alimento necessário à sobrevivência. Emitindo possantes gritos as araras pareciam agradecer o advento do novo dia.

Fui me deixando levar caminhando na areia, bem ao lado da margem do rio. Mansamente sentindo a água com o manso remanso vir até próximo de mim. Isso me trouxe à lembrança uma canção, cujos versos citavam as águas e areias claras do Rio Araguaia.

Quando percebi, a pequena balsa atracara no improvisado porto e eu estava bem longe do local de onde partira. Hora de voltar. Começava o maravilhoso espetáculo do nascer do sol no Araguaia. De repente o sol aparecera detrás da mata longínqua e dourava as águas com seus raios. Chegava a atrapalhar a visão o belo espetáculo.

Voltei ao acampamento e recebi o bom dia do Goiano, morador ribeirinho que no mês de julho montava sua barraca na praia e vivia de pequenos serviços aos poucos turistas que ali apareciam e fazia as vezes de guia e barqueiro. Gentilmente me oferecera sua pequena canoa a remo para que eu pudesse passear pelo rio.

Mas o que tornou inesquecível mesmo foi o desjejum que veio me oferecer: feijão preparado ainda na madrugada, com tiras de toucinho seco, de sol. Confesso que nunca esqueci aquele prato de esmalte humilde, com feijão, oferecido com o mesmo carinho de quem oferece um manjar dos deuses.

Hoje, bem distante dali acompanho a movimentação da temporada do Araguaia no radio e na televisão. Voltam com a saudade essas lembranças. Faz muito tempo que não piso naquelas areias. O mês de Julho por lá ficou muito diferente. Ao invés da paz e quietude do meio de semana, intensos e barulhentas festas com som mecânico e sertanejo. Juventude que busca a mesma agitação das baladas das grandes cidades. O Jet-Ski e as grandes lanchas não permitem mais a navegação da pequena canoa de madeira, a remo, tão gentilmente emprestada pelo ribeirinho Goiano.

Não sou contra o progresso nem contra o conforto. Sou saudosista da época em que o Rio Araguaia nas férias de Julho era lugar de descanso e reflexão. Conheci e vivi esse Araguaia singelo, de belas manhãs de sol e pessoas generosas como o ribeirinho Goiano. O tranqüilo Rio Araguaia que jamais deixará minha lembrança e é presença constante nos recônditos do meu coração.

Goiânia, 22 de julho de 2011

Paulo José Américo Rolim

criado por americorolim    11:58 — Arquivado em: Sem categoria

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